Escrever é deixar fluir e saber contextualizar

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Escrever é deixar fluir e saber contextualizar

Por André Iunes Pinto
(andre@textoemidia.com.br) 

A escrita em um site cria valor quando contextualiza a informação para o visitante. O mesmo conceito se aplica à distribuição do conteúdo, que deve ser organizada de forma clara para estimular a navegação

Como em todo processo de construção do pensamento, ao escrever para um site, a organização do conteúdo que queremos transmitir é vital não só para informar com mais eficiência, mas também para guiar o usuário. Tornar a escrita fluida requer concatenar ideias de forma sequencial; é a arte de conduzir o seu leitor pelas linhas que lê. Reparou que há textos nos quais a leitura flui com rapidez e outros que sempre voltamos ao ponto inicial para reler? Pois bem, isso independe da complexidade do conteúdo abordado, e sim de como a informação é tratada.

Na internet, não se pode confundir superficialidade com leveza. Dependendo do público, você pode, sim, aprofundar uma informação, portanto que faça isso por etapas (se lembra da arte de conduzir o seu leitor?). Para o jornalista, ou blogueiro, antes de redigir um texto, é preciso, antes de tudo, saber qual é o seu grau de domínio do assunto abordado, seja no que tange à qualidade da apuração feita, ou ao esforço de, com uma linguagem simples, tornar o conteúdo agradável de ler.

Sempre reforço a máxima que sem identificação, não há envolvimento. Seja nos relacionamentos amorosos, na compra de algum item de seu interesse, se não há identificação, a química simplesmente não acontece. Parece que a coisa fica “truncada”, o papo não flui, a liga não fixa, os olhares não se encontram, e por aí vai. Com a escrita é a mesma coisa! Senão, não existiriam os livros com centenas de páginas que são devorados em horas. A matémática é simples: se eu leio algo que não entendi, ou que a compreensão se deu pela metade (se é que isso acontece), as chances de envolvimento pontual com o texto diminuem. Por outro lado, se eu leio algo que passo a entender, a probabilidade de identificação e envolvimento aumenta.

Partimos para o meio empresarial. O cliente deseja criar um jornal da sua empresa, oito páginas, colorido, super transado, com notícias sobre o seu negócio. Tão preocupante quanto a cara que esse informativo vai ter é o seu projeto editorial. Quais seções ele vai ter, o que abordará, e, principalmente, qual será o tom da liguagem adotada. É nesse ponto que entra a questão da identidade. Como fazer com que os colaboradres se identifiquem com essa publicação? O “X” da questão é: como fazer com que eles “se vejam” nesse informativo?

Só um parênteses! (a vida é engraçada). Quando estava para me formar na faculdade de jornalismo, durante a elaboração da monografia, eu falei para a professora: “eu só quero ter o diploma, pois serei músico”. Eu tinha verdade naquilo que falava, mas sem ideia alguma do que estava por vir. Além de tocar guitarra (algo que faço diariamente até hoje, graças a Deus), eu passei a minha faculdade inteira lendo pilhas e mais pilhas de revistas técnicas de música, que falavam sobre equipamentos, instrumentos, composição, entre outras coisas. Minha monografia, é claro, foi sobre revistas de música: nada mais justo (e prático à época). Por sorte, ou ironia do destino, eu fui editor de uma das publicações que abordei em meu trabalho de conclusão de curso, algo que eu nunca imaginaria, ou sonharia que algum dia acontecesse.

Ainda seguindo no mesmo parênteses, durante a minha vida acadêmica, eu tinha uma máxima dentro de mim que era a de, seguindo na área jornalística, nunca fazer jornais para empresa. Preconceito, talvez, por achar que esses jornais soassem desinteressantes ao olhar de quem está de fora da empresa (e até de alguns que estão dentro também). Desde que eu me formei, além de trabalhos de criação multimídia, UX (User Experience – experiência do usuário), redação, entre outras áreas, uma das atividades profissionais que mais exerci até hoje foi a de, justamente, fazer revistas empresariais. Eu dobrei a língua (nunca diga nunca)!

Voltando à questão da identidade. Pois bem, quando tive a minha primeira experiência com revistas empresariais, eu era garoto novo e o desafio que se apresentava era inversamente proporcional à minha experiência à época (e coloca inversamente nisso). Tratava-se da revista interna do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), entidade que controla a distribuição de energia no país. Tudo bem que eu não estava sozinho nessa, pois tinha, naquela época, a minha sócia, dez anos mais velha, com experiência para dar e vender no assunto, e um conhecimento profundo do cliente.

Mas a minha dúvida era latente: eu vou escrever para quem: para a secretária, ou para os diretores?

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Essa qualidade floresce quando tornamos nossa escrita fluida. A objetividade nos textos redigidos para o meio online pode figurar de várias formas. Mas ser direto nem sempre é sinônimo de eficácia na compreensão de uma determinada informação pelo usuário. Vamos ver um exemplo prático.

Datas ou fatos primeiro?

Ao navegar no site de uma personalidade conhecida, percebi que parte de sua biografia apresentava os fatos pela data de acontecimento. É uma forma alternativa e, diga–se de passagem, bem feita de acessar a mesma biografia contida no site.

Pois bem: “1968”, por exemplo, remetia para um texto correspondente ao lado, referente a um acontecimento da vida da personalidade naquele ano. Entretanto, isoladamente, “1968” não indica que tipo de informação o usuário vai ver. É somente um ano. Aqui, a tentativa de ser objetivo, por meio de uma sequência enumerada de datas, torna a biografia enigmática e obriga a leitura de todos os anos para achar uma informação de interesse.

Ao fazer o caminho inverso (o fato antes da data), além do próprio acontecimento informar por si só o que o visitante vai ler ao lado, as chances de criarmos uma biografia coesa, feita da mesma maneira por tópicos, são maiores.

Sendo assim: “1968 – Fulano entra na faculdade tal e torna–se presidente do Centro Acadêmico X” informa menos do que “Liderança juvenilEm 1968, ano em que ingressa na faculdade tal, Fulano torna–se presidente do Centro Acadêmico X”. Uma mudança simples que faz muita diferença na hora de organizar o texto em seu site.

Neste caso, a ordem dos fatores certamente altera o produto final: o entendimento da informação pelo usuário.

No exemplo que escolhemos, da biografia, o objetivo era realmente criar tópicos por data, o que não comprometeu a compreensão, já que era uma forma alternativa de acessar o mesmo conteúdo. Acontece, por exemplo, em sites sobre História, onde apresentar um tema por datas cronológicas pode funcionar muito bem.

O que deseja o usuário?

Um site funcional é também aquele no qual as informações fluem de forma coesa, como em um bom texto. Os mesmos princípios da boa escrita podem ser aplicados à estrutura navegacional. Saber contextualizar é primordial na construção da arquitetura de informação. Uma navegação criada com foco no usuário deve ser baseada em atender desejos e objetivos.

A arte de contextualizar

Cada grupo de dados em um site pode ser encarado como uma espécie de célula de informação, que cumpre um objetivo específico dentro do layout.

Outro exemplo prático: em um projeto de reformulação do portal de uma tradicional universidade no Rio de Janeiro, alguns pontos do trabalho eram discutidos em equipe. O intuito era o de levantar os prós e os contras de determinadas decisões de arquitetura da informação. Um dos pontos mais debatidos foi sobre manter ou não dois links denominados “About University” e “Sobre la Universidad” em todas as páginas internas. Os links remetiam às versões reduzidas do site em inglês e espanhol, com as informações básicas da instituição.

Ou seja, o usuário estrangeiro que acessar, por meio de um mecanismo de busca, uma página interna do portal da universidade, por exemplo, encontraria em sua barra superior, em lugar de destaque, os links para as versões em inglês e espanhol. Mas haveria propósito em ter um link para uma versão em língua estrangeira, se o conteúdo que o usuário procurou no momento não está traduzido?

Pois bem, à primeira vista, parece falta de senso colocar estes links nas páginas internas, já que a informação que o usuário procura em específico não é passível de tradução naquele instante.

Contudo, a partir do momento em que se depara com os nomes “About University” e “Sobre la Universidad”, o visitante vai perceber que a informação que ele encontrou está inserida no contexto de uma universidade, visto que a logomarca do site não indicava isso neste exemplo.

Caso queira, o usuário de língua estrangeira poderá conhecer mais sobre a instituição e buscar o dado que procura por meio de um contato de e–mail, dentro de um ambiente em língua estrangeira.

Dessa maneira, “About University” e “Sobre la Universidad” têm um papel a mais no site: tornar visível para o visitante externo o universo no qual determinada informação se encontra.

Não ter esses links nas camadas internas fecha, em um primeiro instante, o contato com o usuário estrangeiro. É importante preservar o fluxo da comunicação ao distribuir o conteúdo em seu sistema. Ter senso crítico, sensibilidade e saber “viajar” nas entrelinhas são essenciais para planejar a arquitetura de um site e torná–lo mais fluido e compreensível para quem navega.

By | 2013-04-17T15:22:21+00:00 Abril 17th, 2013|Artigos, Comunicação online|0 Comments

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