Revistas empresariais têm alma

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Revistas empresariais têm alma

Menina olhando dentro de um jornal / Crédito:SXC.huPor André Iunes Pinto
(andre@textoemidia.com.br)

Sempre reforço a máxima de que sem identificação, não há envolvimento. Seja nos relacionamentos, na compra de algum item de nosso interesse, se não há identificação, a química simplesmente não acontece. Parece que a coisa fica “truncada”, o papo não flui, a liga não fixa, os olhares não se encontram, e por aí vai. Com a escrita é a mesma coisa! Se eu leio algo que não entendi, ou que a compreensão se deu com ruídos, as chances de envolvimento com o texto diminuem. Por outro lado, se eu leio algo que entendo, a probabilidade de identificação e de envolvimento aumenta.

Partimos para o meio empresarial. O cliente deseja criar um jornal da sua empresa, oito páginas, colorido, com notícias sobre o seu negócio. Tão preocupante quanto a cara que esse informativo terá é o seu projeto editorial. Quais seções terá, o que abordará, e, principalmente, qual será o tom da sua linguagem (parece fácil aqui, mas isso requer, entre outras ações, análises e pesquisas com o público-alvo da publicação). É nesse ponto que entra a questão da identidade. Como fazer com que os colaboradores se identifiquem com essa publicação, que “se vejam” nela (não falo aqui da coluna de entrevista com o funcionário)?

Só um parênteses (a vida é engraçada)! Durante o meu período acadêmico, eu tinha uma máxima dentro de mim que era a de, seguindo na área jornalística, nunca fazer jornais ou revistas para empresas. Preconceito, talvez, por achar que esses veículos soassem desinteressantes ao olhar de quem está de fora da campanhia (e até de alguns que estão dentro também, fazer o que?). Desde que me formei, além de trabalhos envolvendo a análise da experiência do usuário em meios digitais e estratégia de conteúdo, uma das atividades profissionais que mais exerci, e que tenho enorme prazer, foi a de (adivinhem) fazer revistas empresariais. Dobrei a língua!

Voltando à questão da identidade. Pois bem, quando tive a minha primeira experiência com revistas empresariais, eu era garoto novo e o desafio que se apresentava era inversamente proporcional à minha experiência à época. Tratava-se da revista interna de um importante órgão que atua no gerenciamento do setor elétrico. Tudo bem que não estava sozinho nessa, pois tinha, naquele momento, a minha sócia, dez anos mais velha, com experiência para dar e vender no assunto e um conhecimento profundo do cliente.

Mas a minha dúvida era latente: escreverei para quem? Para a secretária, ou para os diretores e corpo técnico? A temática era complexa demais. Dependendo do assunto abordado, se escrevesse para os gestores e engenheiros, por exemplo, outros colaboradores fora da área técnica, como o pessoal do administrativo, ou dos recursos humanos, ficariam a ver navios, sem entender “bulhufas” e com o pensamento de que “esse jornal não é para mim”.

Dentre suas várias facetas, o jornalismo serve para tornar a informação democrática. Na minha opinião, todos dentro de uma empresa têm direito a ela, que deve ser clara, passível de identificação e, em alguns casos, didática. Achar o meio termo entre não ser redundante para o engenheiro e não falar grego para a secretária é que mora o “X” da questão. Claro que nem todos os assuntos vão ter o mesmo apelo, pois há sim temas específicos a determinados grupos dentro de uma organização. Mas é dever de quem redige pensar no todo, contextualizar a informação aos que não conhecem do tema para, quem sabe, trocar uma ideia com os colegas no refeitório (caso não saiba, além da novela, informativos da empresa também servem de pauta na hora do lanche).

Se conselho fosse bom seria vendido, mas, aproveitando este espaço, deixo aqui o meu: no caso das revistas empresariais, escreva para o entendimento de um número máximo de colaboradores, e não somente para os diretores, presidentes, ou para quem te contratou diretamente. Ou seja, tenha como base da sua escrita o entendimento de quem minimamente conhece do tema abordado. Hoje, as áreas de comunicação das empresas já têm essa cultura e sensibilidade, mas carregue isso com você em seu discurso na hora de fechar um job com o seu cliente. Lembre-se: pessoas são o nosso foco. Quanto mais identificação um produto de comunicação cria com o seu público, mais ele será querido: é daí que surge a “alma” das coisas.

 

By | 2014-03-20T18:17:21+00:00 março 20th, 2014|Artigos|Comentários desativados em Revistas empresariais têm alma

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